Trata-se de uma questão que interessa diretamente aos produtores do Portal Comunitário. Não apenas porque em muito o jornalismo opera com um perfil imaginado de leitor (tática que orienta decisões, da pauta à redação), mas em função de que as estratégias de publicação na web são responsáveis também por envolver o público (a seu modo).
As primeiras expectativas vislumbradas com o potencial do jornalismo na web concentravam-se justamente nessa maior participação do leitor, seja comentando ou clicando em links. Como se bastasse 'estar na web' para gerar um outro jornalismo, mais envolvente e plural.
Hoje temos materiais empíricos e teóricos suficientes para desconfiar desse automatismo. As sistematizações das diferentes - e em alguma medida simultâneas - fases do jornalismo digital contribuem nesse sentido. A sociedade (empresas, organizações, pesquisadores, profissionais) gradualmente desenvolve, processualmente reconhece e se apropria das especificidades dessa tecnologia da comunicação.
Em suma, estamos na captura e na formação desse público, da mesma forma como ainda procuramos desenvolver estratégias de produção que melhor envolvam e sintonizem a expectativa do leitor - agora com outras possibilidades de atuação e escolha sobre os materiais informativos que consome/lê/recusa/recomenda/acompanha.
Uma complicada situação a investigar: comunitário sem comentários
Uma das marcas do Portal Comunitário é sua alçada ampla, vai de reportagens especiais sobre temas de interesse das comunidades às notícias da Câmara de Vereadores. Vale-se de editoriais (texto opinativo, portanto) e matérias informativas multi-temáticas (saúde, política, meio ambiente, sociedade civil...). Tudo isso associado a um forte ritmo de atualização para uma produção laboratorial (com direito a "erramos") - e mesmo para o mercado local, que o diga a experiência de sites e portais locais ou regionais que não vingaram. Há, em síntese, uma abrangência temática fomentada em regularidade praticamente diária - periodicidade que vai configurar um determinado tipo de relação com o público leitor.
Outro dado que nos diz como o Portal 'captura' o público está no direcionamento produtivo a partir das entidades e associações comunitárias - sua principal e original proposta na cidade, aliás. São essas organizações (e suas movimentações) que vão gerar acontecimentos do interesse específico das equipes de repórteres/estudantes. Com o instigante complicador de que o leitor das matérias publicadas não se restringe a tais grupos e nem mesmo aos bairros da cidade. Esse leitor internauta é variado e fugidio, para dizer pouco.
Configura-se então uma situação comum a diferentes propostas (universitárias ou não) de jornalismo comunitário na web. Gera-se notícia a partir de certas comunidades, mas com alcance virtualmente global na hora da publicação. Tanto é que nem sempre o leitor que deixa comentários nas matérias pertence às comunidades citadas/preferidas. A depender das estratégias produtivas, ambos os públicos podem ser instigados a participar e de diferentes maneiras.
Comentar matéria então pode ser apenas uma das opções de participação de determinado público. Mas não deixa de ser um indicador a ter em conta o reduzido número de comentários do leitor no Portal Comunitário.
Desde o dia 3 de janeiro de 2009, foram apenas quatro comentários para três matérias (nos dias 19 de março, 16 e 20 de abril), num cenário de 75 matérias publicadas. O que significa que 72 textos não receberam esse tipo de retorno do leitor. Cabe debater até onde isso representa problema técnico, editorial e/ou das condições locais de acesso a internet.
Uma limitada mas necessária comparação: o blog Crítica de Ponta (outro projeto do curso de Jornalismo da UEPG) tem 13 comentários de leitores somente na última edição semanal.
Links e pluralidade leitora
Outra forma de envolver o leitor na produção informativa na web é indicar caminhos (confiáveis!) de leitura e localização em meio ao universo caótico de dados disponíveis na internet. Em vez de sair procurando por conta própria, o leitor pode esperar que seu portal preferido recomende continuidades e assim ajude a organizar sua leitura e interpretação de certo fenômeno.
Os links cumprem diferentes funções em um mesmo texto. A utilização preferida durante a semana passada (17 a 23 de maio) em um universo de seis matérias foi por links internos, que remetem a outra página dentro do próprio portal, numa espécie de retranca ou desdobramento da notícia. Confira:
Link interno (retranca) | Link externo (outros sites) | Link para matérias de arquivo do Portal | |
Domingo (reportagem especial sobre piso salarial de professores) | SIM | NÃO | NÃO |
Segunda-feira (reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente) | SIM | NÃO | NÃO |
Terça-feira (posto de saúde da Vila Santa Mônica) | NÃO | NÃO | NÃO |
Quarta-feira (recepcionistas de imobiliárias) | SIM | NÃO | NÃO |
Quinta-feira (baixa presença em sessões na Câmara) | NÃO | NÃO | NÃO |
Sexta-feira (Artesanato Apadevi) | NÃO | NÃO | NÃO |
Numa primeira impressão, a utilização de links seria mero requinte técnico ou preciosismo do jornalista. Gradualmente, percebe-se que na web o recurso desempenha papel relevante de navegabilidade e na riqueza informativa (ou reconhecimento da singularidade do mundo fenomênico, para citar Adelmo Genro Filho).
No levantamento, metade das matérias se valeu do recurso de link como retranca ou desdobramento do tema. Os dois últimos textos (de quinta e sexta-feira) deixam de prestar informações de serviço que seriam facilmente resolvidas com links e não com longos parágrafos. Seria o caso de 'linkar' respectivamente para a pauta da sessão da Câmara (sempre disponível no Portal ou então para o próprio site da Câmara) e para informações de serviço sobre a atividade da Apadevi. No primeiro caso, trata-se novamente de melhor aproveitarmos comunicações entre os braços ou as partes do Portal.
No segundo caso, um link externo (para site da entidade ou afim) talvez pudesse resolver. Nenhuma das matérias, no entanto, utiliza essa recomendação para documentos ou informações que podem estar em outros 'lugares' da web. Existem documentos públicos digitalizados úteis para a organização comunitária e levantamentos relevantes que jamais seriam acessados não fossem recomendações disponíveis em sites noticiosos...
Outra possibilidade não acionada durante a semana foi a utilização de links para os materiais já produzidos, como na matéria sobre posto de saúde da semana retrasada (iniciativa aqui elogiada). Facilitar acesso ao arquivo por meio de links por afinidade ao fim dos textos é uma forma de fidelizar o leitor e respeitar seu virtual interesse por conhecer mais sobre certa realidade. Às vezes é essa informação de arquivo que dá sentido e noticiabilidade ao novo fato.
Colocar bem os links, portanto, tem a ver também com pluralidade jornalística na apuração e na publicação. Em que medida, por exemplo, o horário das sessões na Câmara dos Vereadores inibe e estimula participação popular? Sempre foi nesse horário? Por que não há transmissão direta pelo site? Informações que um desdobramento ou link interno poderia bem resolver - e assim também estimular o leitor a uma interpretação pelo ângulo das contradições e da pluralidade do mundo social e em rede.
Rafael Schoenherr

Senti falta do ombudsman essa semana.
ResponderExcluirO que se passa com o representante do leitor?
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