segunda-feira, 18 de maio de 2009

Agenda jornalística na projeção de uma sociedade civil organizada

A comunidade (e)leitor@ dos periódicos ponta-grossenses percebe neste primeiro semestre um reencaixe local de forças e vozes sociais. Seria exagero dizer que somente em 2009 é que surgiu a sociedade civil organizada por esses campos (por melhor que seja a provocação...). No entanto, vale notar que em diferentes e seguidos momentos deste ano ela parece adquirir um desenho mais nítido na interlocução e negociação dos interesses coletivos. E qualquer jornal que se preze não pode(ria) ficar de fora de uma reconfiguração política - sob o risco de paradoxalmente não ser mais um noticiário de seu tempo.

Uma das marcas desse processo de politização de setores da sociedade princesina foi o sistemático questionamento a decisões unilaterais como forma de resolver os problemas da cidade (algo ainda atual mesmo em órgãos ditos planejados). Foi decisória nesse sentido a mobilização pública contra o aumento no preço da passagem do transporte coletivo no início do ano e posterior cobrança por transparência na gerência da verba pública. A instalação de comissões parlamentares de inquérito na Câmara de Vereadores indica também outro nível de cobrança e expectativas sobre o papel do Legislativo.

Como bem registrou o Portal Comunitário na semana passada, um terceiro fator a colaborar nesse novo cenário é o surgimento de atores representativos que passam a interagir nas decisões de interesse público. Seja por meio de conselhos, associações, sindicatos, movimentos ou fóruns, a discussão pode se tornar mais ampla e participativa com vistas a decidir os rumos de variados setores, da cultura ao meio ambiente.


O jornalismo na captura e produção de uma outra agenda pública

Na semana avaliada, entre os dias 10 e 16 de maio, o Portal tirou bom proveito de temas candentes e se destacou pelo fato de conseguir fazer agenda. Há um esforço em fazer a conexão entre eventos passados, anunciados/futuros e tensões presentes (o que daqui para frente pode ser ainda melhor explorado, espera-se). Isso se traduz em anunciar e ir cobrir, repercutir, acompanhar ações dos movimentos (por vezes, para além do factual e do episódico). Sob essa perspectiva é que se registram avanços e limitações do material publicado.

Houve bom trabalho de pautas, indo da associação de moradores do Monteiro Lobato à situação da saúde pública nos bairros. A matéria de segunda-feira (11) noticiou manifestação do Grupo Fauna na manhã de sábado (9). O jornalismo de interesse comunitário tem realmente a função de registrar intervenções dos grupos sociais. E, o que foi melhor, sem abandonar o apelo factual do calendário 'festivo'. Ignorar tais datas não seria a melhor saída. Aproveitou-se uma data comercial (noticiabilidade!) para, no fim de semana, cobrir manifestação que tensiona tal lógica e reivindica atenção pública a determinado problema. Esse tipo de cobertura in loco leva o repórter a criar proximidade com a comunidade e vivenciar conflitos - coisas que a imprensa nem sempre consegue fazer...

Outro acerto foi a notícia de terça-feira (12) sobre reunião realizada na UEPG que anunciava o lançamento oficial do Fórum Social em Defesa de Políticas Públicas. O evento estava anunciado antecipadamente no 'mural de recados' Eventos da Comunidade, no canto superior direito da página principal. Isso significa que, novamente, no dia o repórter foi até lá cobrir. Daí saiu a importante informação (de agenda!) com a data exata do lançamento (dia 14), na Câmara Municipal.

Esse movimento da reportagem em anunciar antecipadamente e na seqüência deslocar-se para cobrir, dizer como foi e repercutir a ocorrência (algo aparentemente simples, mas nem sempre cumprido à risca pelos jornais) quebra com uma leitura episódica e demasiadamente fragmentada das reivindicações da sociedade civil. Permite ler o acontecimento justamente em seus desdobramentos (de sentido e interpretação)...

Temas caros demais para uma abordagem episódica (ou uma agenda que não apaga o passado...)

Fazer agenda também agrega outra dimensão: para além do acompanhamento do acontecimento no tempo, o acompanhamento temático. Não é de hoje que o Portal Comunitário noticia a situação da saúde pública a partir da qualidade do serviço em diferentes bairros. E na web é possível estimular essa continuidade na leitura por meio de conexões/links. Ao final da leitura do texto principal sobre o Jardim Esplanada, recomenda-se assim um aprofundamento. Ainda mais: os links agrupados do arquivo traçam um interessante diagnóstico da saúde pública na cidade. Acompanhe:


17/04/09 -
Com poucos funcionários, Posto de Saúde da Palmeirinha atende a quatro vilas
10/12/08 -
População enfrenta problemas com a falta de médicos no Parque Tarobá
08/12/08 -
Pacientes ficam sem atendimento no posto de saúde da Palmeirinha
28/10/08 - Olarias:
Posto de Saúde deve funcionar em tempo integral, dizem moradores
25/10/08 -
Demandas de pacientes ficam sem atendimento no Núcleo Pitangui
18/09/08 -
Moradores fazem fila de madrugada no posto de saúde do Santa Maria

Um tipo de monitoria indispensável sobre a qualidade do serviço público (bancado pelo contribuinte) que cabe ao jornalismo.

A matéria de quarta-feira (13) sobre a feira em frente à igreja São José cumpre com outra função de agenda, que é de opção cultural ou de facilitar a organização na vida diária. Nesse sentido, falta apenas colocar a opção na relação de eventos regulares dos 'Eventos da Comunidade'. As partes do portal vão, assim, se reformulando na medida em que se comunicam.

Reportagem da semana

A reportagem especial abriu a semana com o tema da participação popular, tendo como recorte a Associação de Moradores do Monteiro Lobato - escolha acertada para tratar tal contradição, tendo em vista o alto contingente populacional. Indiretamente, é necessário registrar que o tema seria reforçado ao longo da semana por outras matérias sobre outros acontecimentos - o que, a meu ver, sinaliza para acerto na conduta editorial do Portal. A organização da sociedade civil, que pode começar pela 'simples' reunião de moradores, é bandeira a ser atacada por diferentes frentes de reportagem.

Algumas das falas coletadas são ilustrativas (e até pedagógicas) no sentido de mostrar que problemas habituais dos bairros, como transporte e acesso, podem ser intermediados quando os moradores estão organizados. Diferente então de um jornal a ser veiculado somente no Monteiro, o Portal precisa manter essa preocupação mais ampla com a utilidade das informações para outras comunidades que também pretendem se organizar. O desdobramento explicativo sobre a própria definição de associação de moradores funciona nesse quesito.

O recurso de links logo abaixo da cabeça da matéria funciona bem e rompe com a demasiada linearidade dos textos em geral apresentados na página principal. Pode-se ter a visão de panorama antes de penetrar na leitura. Ao internauta cabe traçar então um trajeto de leitura (conforme estímulos e limites da produção, vale lembrar).

O editorial (entre os links da matéria, o que foi bem lembrado) cumpre bem com a função de posicionamento informado sobre a realidade. Estimula a leitura da reportagem especial da semana. Possui, ainda, complemento em áudio (interessante para forjar novos formatos de editorial atrelados ao jornalismo digital - algo que não se ousa muito pensar na academia afora). Para melhor exploração do poder de arquivo da web (atrelado a utilidade pública), poderia haver um link para o texto da lei mencionada.

Duas informações da reportagem especial precisam de complementação ou confirmação. Uma das fontes cita que “O Brasil tem 509 anos, e apenas há 11 anos temos o direito a participar”. Talvez o leitor tenha dificuldade em lembrar o que mudou exatamente em 1998 que nos garantiu direito a (qual tipo de) participação.

Outra questão é o citado repasse dos órgãos municipais às associações de moradores (que seria insuficiente, daí a necessidade de cobrar taxas de mensalidade dos associados, mesmo que pequenas). Aqui existe gancho para outra matéria. A quantas anda esse repasse?


Agendar é (também) criar e suprir expectativas

Aponto dois problemas rastreados durante a semana que passou - um de ordem geral e o outro pontual - a serem pensados mediante essa lógica editorial que chamo aqui da criação de uma agenda jornalística na projeção de uma sociedade civil (quase) organizada.

1 - O que fazer para não recair em certo tipo de jornalismo sindical, principalmente naquele sustentado na voz dos diretores sindicais (como única fonte) que comunicam algo a suas bases? O Portal tem interesses mais amplos e interlocutores mais plurais que tais publicações direcionadas.

2 - Dado o acompanhamento dedicado ao anúncio de criação do Fórum Social em Defesa de Políticas Públicas, esperava-se (num justo senso comum de leitor de jornal) encontrar no Portal matéria abordando o evento da quinta-feira (14) na Câmara, dizendo como foi. Há que se ponderar, claro, as variáveis locais de produção laboratorial (e o fato de que o tema pode voltar durante esta semana). Mas, em alguma medida, é o preço da agenda...

Questões que não invalidam, mas certamente estão preocupadas em desenvolver essa tática já iniciada pelo Portal de fazer agenda junto a interesses e mobilizações da sociedade civil organizada na articulação política, em seus esforços de transformação e melhoria na qualidade de vida.

Outra expectativa

O Portal Comunitário foi indicado e concorre ao prêmio de melhor jornal-laboratório online na 14ª edição do Prêmio Sangue Novo, organizado pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná.

Rafael Schoenherr

2 comentários:

  1. Emanuelle Adacheski18 maio, 2009

    Atendendo às sugestões do Representante do Leitor, Rafael Schoenherr, a Feira Solidária já foi adicionada à agenda de eventos regulares. Além disso, as leis mencionadas no editorial "Falta de participação em associação de moradores: cidadania abandonada" estão, agora, devidamente linkadas aos textos disponíveis no site da Presidência da República.

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  2. Sobre a citação "A professora do departamento de Serviço Social da UEPG, Danuta Cantoia Luiz, afirma...", foi alterado na citação “O Brasil tem 509 anos, e apenas há 11 anos temos o direito a participar”, para "...apenas 21 anos temos o direito de participar".

    Fui um erro nosso. Publicaremos uma errata, visto que a autora referia-se à Constituição de 1988, portanto 21 anos.

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