segunda-feira, 25 de maio de 2009

O que se passa com o público do jornalismo digital

Trata-se de uma questão que interessa diretamente aos produtores do Portal Comunitário. Não apenas porque em muito o jornalismo opera com um perfil imaginado de leitor (tática que orienta decisões, da pauta à redação), mas em função de que as estratégias de publicação na web são responsáveis também por envolver o público (a seu modo).

As primeiras expectativas vislumbradas com o potencial do jornalismo na web concentravam-se justamente nessa maior participação do leitor, seja comentando ou clicando em links. Como se bastasse 'estar na web' para gerar um outro jornalismo, mais envolvente e plural.

Hoje temos materiais empíricos e teóricos suficientes para desconfiar desse automatismo. As sistematizações das diferentes - e em alguma medida simultâneas - fases do jornalismo digital contribuem nesse sentido. A sociedade (empresas, organizações, pesquisadores, profissionais) gradualmente desenvolve, processualmente reconhece e se apropria das especificidades dessa tecnologia da comunicação.

Em suma, estamos na captura e na formação desse público, da mesma forma como ainda procuramos desenvolver estratégias de produção que melhor envolvam e sintonizem a expectativa do leitor - agora com outras possibilidades de atuação e escolha sobre os materiais informativos que consome/lê/recusa/recomenda/acompanha.

Uma complicada situação a investigar: comunitário sem comentários

Uma das marcas do Portal Comunitário é sua alçada ampla, vai de reportagens especiais sobre temas de interesse das comunidades às notícias da Câmara de Vereadores. Vale-se de editoriais (texto opinativo, portanto) e matérias informativas multi-temáticas (saúde, política, meio ambiente, sociedade civil...). Tudo isso associado a um forte ritmo de atualização para uma produção laboratorial (com direito a "erramos") - e mesmo para o mercado local, que o diga a experiência de sites e portais locais ou regionais que não vingaram. Há, em síntese, uma abrangência temática fomentada em regularidade praticamente diária - periodicidade que vai configurar um determinado tipo de relação com o público leitor.

Outro dado que nos diz como o Portal 'captura' o público está no direcionamento produtivo a partir das entidades e associações comunitárias - sua principal e original proposta na cidade, aliás. São essas organizações (e suas movimentações) que vão gerar acontecimentos do interesse específico das equipes de repórteres/estudantes. Com o instigante complicador de que o leitor das matérias publicadas não se restringe a tais grupos e nem mesmo aos bairros da cidade. Esse leitor internauta é variado e fugidio, para dizer pouco.

Configura-se então uma situação comum a diferentes propostas (universitárias ou não) de jornalismo comunitário na web. Gera-se notícia a partir de certas comunidades, mas com alcance virtualmente global na hora da publicação. Tanto é que nem sempre o leitor que deixa comentários nas matérias pertence às comunidades citadas/preferidas. A depender das estratégias produtivas, ambos os públicos podem ser instigados a participar e de diferentes maneiras.

Comentar matéria então pode ser apenas uma das opções de participação de determinado público. Mas não deixa de ser um indicador a ter em conta o reduzido número de comentários do leitor no Portal Comunitário.

Desde o dia 3 de janeiro de 2009, foram apenas quatro comentários para três matérias (nos dias 19 de março, 16 e 20 de abril), num cenário de 75 matérias publicadas. O que significa que 72 textos não receberam esse tipo de retorno do leitor. Cabe debater até onde isso representa problema técnico, editorial e/ou das condições locais de acesso a internet.

Uma limitada mas necessária comparação: o blog Crítica de Ponta (outro projeto do curso de Jornalismo da UEPG) tem 13 comentários de leitores somente na última edição semanal.


Links e pluralidade leitora

Outra forma de envolver o leitor na produção informativa na web é indicar caminhos (confiáveis!) de leitura e localização em meio ao universo caótico de dados disponíveis na internet. Em vez de sair procurando por conta própria, o leitor pode esperar que seu portal preferido recomende continuidades e assim ajude a organizar sua leitura e interpretação de certo fenômeno.

Os links cumprem diferentes funções em um mesmo texto. A utilização preferida durante a semana passada (17 a 23 de maio) em um universo de seis matérias foi por links internos, que remetem a outra página dentro do próprio portal, numa espécie de retranca ou desdobramento da notícia. Confira:

Link interno (retranca)

Link externo

(outros sites)

Link para matérias de arquivo do Portal

Domingo (reportagem especial sobre piso salarial de professores)

SIM

NÃO

NÃO

Segunda-feira

(reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente)

SIM

NÃO

NÃO

Terça-feira

(posto de saúde da Vila Santa Mônica)

NÃO

NÃO

NÃO

Quarta-feira

(recepcionistas de imobiliárias)

SIM

NÃO

NÃO

Quinta-feira

(baixa presença em sessões na Câmara)

NÃO

NÃO

NÃO

Sexta-feira

(Artesanato Apadevi)

NÃO

NÃO

NÃO

Numa primeira impressão, a utilização de links seria mero requinte técnico ou preciosismo do jornalista. Gradualmente, percebe-se que na web o recurso desempenha papel relevante de navegabilidade e na riqueza informativa (ou reconhecimento da singularidade do mundo fenomênico, para citar Adelmo Genro Filho).

No levantamento, metade das matérias se valeu do recurso de link como retranca ou desdobramento do tema. Os dois últimos textos (de quinta e sexta-feira) deixam de prestar informações de serviço que seriam facilmente resolvidas com links e não com longos parágrafos. Seria o caso de 'linkar' respectivamente para a pauta da sessão da Câmara (sempre disponível no Portal ou então para o próprio site da Câmara) e para informações de serviço sobre a atividade da Apadevi. No primeiro caso, trata-se novamente de melhor aproveitarmos comunicações entre os braços ou as partes do Portal.

No segundo caso, um link externo (para site da entidade ou afim) talvez pudesse resolver. Nenhuma das matérias, no entanto, utiliza essa recomendação para documentos ou informações que podem estar em outros 'lugares' da web. Existem documentos públicos digitalizados úteis para a organização comunitária e levantamentos relevantes que jamais seriam acessados não fossem recomendações disponíveis em sites noticiosos...

Outra possibilidade não acionada durante a semana foi a utilização de links para os materiais já produzidos, como na matéria sobre posto de saúde da semana retrasada (iniciativa aqui elogiada). Facilitar acesso ao arquivo por meio de links por afinidade ao fim dos textos é uma forma de fidelizar o leitor e respeitar seu virtual interesse por conhecer mais sobre certa realidade. Às vezes é essa informação de arquivo que dá sentido e noticiabilidade ao novo fato.

Colocar bem os links, portanto, tem a ver também com pluralidade jornalística na apuração e na publicação. Em que medida, por exemplo, o horário das sessões na Câmara dos Vereadores inibe e estimula participação popular? Sempre foi nesse horário? Por que não há transmissão direta pelo site? Informações que um desdobramento ou link interno poderia bem resolver - e assim também estimular o leitor a uma interpretação pelo ângulo das contradições e da pluralidade do mundo social e em rede.

Rafael Schoenherr

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Agenda jornalística na projeção de uma sociedade civil organizada

A comunidade (e)leitor@ dos periódicos ponta-grossenses percebe neste primeiro semestre um reencaixe local de forças e vozes sociais. Seria exagero dizer que somente em 2009 é que surgiu a sociedade civil organizada por esses campos (por melhor que seja a provocação...). No entanto, vale notar que em diferentes e seguidos momentos deste ano ela parece adquirir um desenho mais nítido na interlocução e negociação dos interesses coletivos. E qualquer jornal que se preze não pode(ria) ficar de fora de uma reconfiguração política - sob o risco de paradoxalmente não ser mais um noticiário de seu tempo.

Uma das marcas desse processo de politização de setores da sociedade princesina foi o sistemático questionamento a decisões unilaterais como forma de resolver os problemas da cidade (algo ainda atual mesmo em órgãos ditos planejados). Foi decisória nesse sentido a mobilização pública contra o aumento no preço da passagem do transporte coletivo no início do ano e posterior cobrança por transparência na gerência da verba pública. A instalação de comissões parlamentares de inquérito na Câmara de Vereadores indica também outro nível de cobrança e expectativas sobre o papel do Legislativo.

Como bem registrou o Portal Comunitário na semana passada, um terceiro fator a colaborar nesse novo cenário é o surgimento de atores representativos que passam a interagir nas decisões de interesse público. Seja por meio de conselhos, associações, sindicatos, movimentos ou fóruns, a discussão pode se tornar mais ampla e participativa com vistas a decidir os rumos de variados setores, da cultura ao meio ambiente.


O jornalismo na captura e produção de uma outra agenda pública

Na semana avaliada, entre os dias 10 e 16 de maio, o Portal tirou bom proveito de temas candentes e se destacou pelo fato de conseguir fazer agenda. Há um esforço em fazer a conexão entre eventos passados, anunciados/futuros e tensões presentes (o que daqui para frente pode ser ainda melhor explorado, espera-se). Isso se traduz em anunciar e ir cobrir, repercutir, acompanhar ações dos movimentos (por vezes, para além do factual e do episódico). Sob essa perspectiva é que se registram avanços e limitações do material publicado.

Houve bom trabalho de pautas, indo da associação de moradores do Monteiro Lobato à situação da saúde pública nos bairros. A matéria de segunda-feira (11) noticiou manifestação do Grupo Fauna na manhã de sábado (9). O jornalismo de interesse comunitário tem realmente a função de registrar intervenções dos grupos sociais. E, o que foi melhor, sem abandonar o apelo factual do calendário 'festivo'. Ignorar tais datas não seria a melhor saída. Aproveitou-se uma data comercial (noticiabilidade!) para, no fim de semana, cobrir manifestação que tensiona tal lógica e reivindica atenção pública a determinado problema. Esse tipo de cobertura in loco leva o repórter a criar proximidade com a comunidade e vivenciar conflitos - coisas que a imprensa nem sempre consegue fazer...

Outro acerto foi a notícia de terça-feira (12) sobre reunião realizada na UEPG que anunciava o lançamento oficial do Fórum Social em Defesa de Políticas Públicas. O evento estava anunciado antecipadamente no 'mural de recados' Eventos da Comunidade, no canto superior direito da página principal. Isso significa que, novamente, no dia o repórter foi até lá cobrir. Daí saiu a importante informação (de agenda!) com a data exata do lançamento (dia 14), na Câmara Municipal.

Esse movimento da reportagem em anunciar antecipadamente e na seqüência deslocar-se para cobrir, dizer como foi e repercutir a ocorrência (algo aparentemente simples, mas nem sempre cumprido à risca pelos jornais) quebra com uma leitura episódica e demasiadamente fragmentada das reivindicações da sociedade civil. Permite ler o acontecimento justamente em seus desdobramentos (de sentido e interpretação)...

Temas caros demais para uma abordagem episódica (ou uma agenda que não apaga o passado...)

Fazer agenda também agrega outra dimensão: para além do acompanhamento do acontecimento no tempo, o acompanhamento temático. Não é de hoje que o Portal Comunitário noticia a situação da saúde pública a partir da qualidade do serviço em diferentes bairros. E na web é possível estimular essa continuidade na leitura por meio de conexões/links. Ao final da leitura do texto principal sobre o Jardim Esplanada, recomenda-se assim um aprofundamento. Ainda mais: os links agrupados do arquivo traçam um interessante diagnóstico da saúde pública na cidade. Acompanhe:


17/04/09 -
Com poucos funcionários, Posto de Saúde da Palmeirinha atende a quatro vilas
10/12/08 -
População enfrenta problemas com a falta de médicos no Parque Tarobá
08/12/08 -
Pacientes ficam sem atendimento no posto de saúde da Palmeirinha
28/10/08 - Olarias:
Posto de Saúde deve funcionar em tempo integral, dizem moradores
25/10/08 -
Demandas de pacientes ficam sem atendimento no Núcleo Pitangui
18/09/08 -
Moradores fazem fila de madrugada no posto de saúde do Santa Maria

Um tipo de monitoria indispensável sobre a qualidade do serviço público (bancado pelo contribuinte) que cabe ao jornalismo.

A matéria de quarta-feira (13) sobre a feira em frente à igreja São José cumpre com outra função de agenda, que é de opção cultural ou de facilitar a organização na vida diária. Nesse sentido, falta apenas colocar a opção na relação de eventos regulares dos 'Eventos da Comunidade'. As partes do portal vão, assim, se reformulando na medida em que se comunicam.

Reportagem da semana

A reportagem especial abriu a semana com o tema da participação popular, tendo como recorte a Associação de Moradores do Monteiro Lobato - escolha acertada para tratar tal contradição, tendo em vista o alto contingente populacional. Indiretamente, é necessário registrar que o tema seria reforçado ao longo da semana por outras matérias sobre outros acontecimentos - o que, a meu ver, sinaliza para acerto na conduta editorial do Portal. A organização da sociedade civil, que pode começar pela 'simples' reunião de moradores, é bandeira a ser atacada por diferentes frentes de reportagem.

Algumas das falas coletadas são ilustrativas (e até pedagógicas) no sentido de mostrar que problemas habituais dos bairros, como transporte e acesso, podem ser intermediados quando os moradores estão organizados. Diferente então de um jornal a ser veiculado somente no Monteiro, o Portal precisa manter essa preocupação mais ampla com a utilidade das informações para outras comunidades que também pretendem se organizar. O desdobramento explicativo sobre a própria definição de associação de moradores funciona nesse quesito.

O recurso de links logo abaixo da cabeça da matéria funciona bem e rompe com a demasiada linearidade dos textos em geral apresentados na página principal. Pode-se ter a visão de panorama antes de penetrar na leitura. Ao internauta cabe traçar então um trajeto de leitura (conforme estímulos e limites da produção, vale lembrar).

O editorial (entre os links da matéria, o que foi bem lembrado) cumpre bem com a função de posicionamento informado sobre a realidade. Estimula a leitura da reportagem especial da semana. Possui, ainda, complemento em áudio (interessante para forjar novos formatos de editorial atrelados ao jornalismo digital - algo que não se ousa muito pensar na academia afora). Para melhor exploração do poder de arquivo da web (atrelado a utilidade pública), poderia haver um link para o texto da lei mencionada.

Duas informações da reportagem especial precisam de complementação ou confirmação. Uma das fontes cita que “O Brasil tem 509 anos, e apenas há 11 anos temos o direito a participar”. Talvez o leitor tenha dificuldade em lembrar o que mudou exatamente em 1998 que nos garantiu direito a (qual tipo de) participação.

Outra questão é o citado repasse dos órgãos municipais às associações de moradores (que seria insuficiente, daí a necessidade de cobrar taxas de mensalidade dos associados, mesmo que pequenas). Aqui existe gancho para outra matéria. A quantas anda esse repasse?


Agendar é (também) criar e suprir expectativas

Aponto dois problemas rastreados durante a semana que passou - um de ordem geral e o outro pontual - a serem pensados mediante essa lógica editorial que chamo aqui da criação de uma agenda jornalística na projeção de uma sociedade civil (quase) organizada.

1 - O que fazer para não recair em certo tipo de jornalismo sindical, principalmente naquele sustentado na voz dos diretores sindicais (como única fonte) que comunicam algo a suas bases? O Portal tem interesses mais amplos e interlocutores mais plurais que tais publicações direcionadas.

2 - Dado o acompanhamento dedicado ao anúncio de criação do Fórum Social em Defesa de Políticas Públicas, esperava-se (num justo senso comum de leitor de jornal) encontrar no Portal matéria abordando o evento da quinta-feira (14) na Câmara, dizendo como foi. Há que se ponderar, claro, as variáveis locais de produção laboratorial (e o fato de que o tema pode voltar durante esta semana). Mas, em alguma medida, é o preço da agenda...

Questões que não invalidam, mas certamente estão preocupadas em desenvolver essa tática já iniciada pelo Portal de fazer agenda junto a interesses e mobilizações da sociedade civil organizada na articulação política, em seus esforços de transformação e melhoria na qualidade de vida.

Outra expectativa

O Portal Comunitário foi indicado e concorre ao prêmio de melhor jornal-laboratório online na 14ª edição do Prêmio Sangue Novo, organizado pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná.

Rafael Schoenherr

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A crítica joga a favor de um novo jornalista

Daqui para frente, segunda-feira é dia de atualização da coluna digital de ombudsman do Portal Comunitário. O leitor poderá encontrar, semanalmente, comentários de avaliação sobre o material publicado e as estratégias jornalísticas adotadas neste valioso projeto laboratorial do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Busca-se entender este blog "Representante do Leitor" como ponto de diálogo entre diferentes tipos de leitores e de cruzamento de níveis de leitura ou interesse.

Felizmente, a figura do ombudsman não é mais novidade nos Campos Gerais, como era há pouquíssimo tempo. E não seria presunção acreditar que as produções laboratoriais do curso têm responsabilidade nisso. Até porque vários profissionais da imprensa princesina passaram pela formação na UEPG e também foram alvos da atenção (sempre crítica e rigorosa, espera-se, mas ainda assim aberta ao diálogo) do 'ouvidor dos leitores'.

Esse dispositivo vigorou no impresso laboratorial e, em outra prova de ousadia, se estendeu ao ambiente digital. Quando coordenei o Foca Livre, contava com a voz precisa da professora Karina Janz na figura de ombudsman, ponto indispensável de orientação nos rumos do jornal. Qual não foi minha surpresa, agora, ao reencontrar e dar continuidade às suas estimulantes colocações sobre esta outra modalidade de jornalismo.

Com a diferença que agora podemos cobrar o Portal de outra forma. Não apenas porque muda o ouvidor, mas também pela nova fase de maturação do projeto - não mais os primeiros e seminais passos de vida. Um estudante que se habitua desde a graduação à interação com a crítica vai saber tirar proveito dela no mercado profissional. Sendo que ela nem sempre aparece nessa forma organizada e aberta.

Este novo profissional, em formação, dificilmente entenderia um comentário sobre sua produção como ofensa pessoal, maldade dos 'amigos' ou restrição de sua preciosa liberdade criativa de atuação. Pois em alguma medida ele compreendeu que jornalismo é atividade pública - daí que a crítica 'jogue a favor'.

Como os impressos em Ponta Grossa não circulam às segundas, abre-se uma lacuna na agenda de leitura diária noticiosa de todo estudante ou professor de Jornalismo (e demais interessados diretos). Convida-se, assim, o leitor a preencher esse breve mas nobre horário com a leitura das novidades no Portal Comunitário (que não pára nem aos domingos!) e nesta coluna de ombudsman. Mudanças em produtos laboratoriais perpassam alterações no habitus estudantil, profissional e leitor.

Outra lacuna do mercado local de informação é a notícia mobilizada pelo interesse coletivo e pelas particularidades comunitárias. O projeto tenta responder a isso como uma proposta editorial criativa e de responsabilidade. Busca pautar enlaces comunitários frente a desagregação social e o crescimento desorganizado e nem sempre sustentável da cidade.


Orientações iniciais sobre a leitura do Representante do Leitor

A leitura do ombudsman sobre o Portal Comunitário leva em conta aspectos da etapa de produção jornalística (rotinas), características finais dos textos (redação), modos de apresentação do conteúdo ao internauta (publicação e navegação) e possíveis respostas da comunidade (retorno). Sem perder de vista a singularidade do projeto editorial, que une práticas de jornalismo comunitário e digital. Tudo isso não em um produto de mercado, mas em um objeto laboratorial, necessariamente em desenvolvimento e gerador de conhecimentos específicos.

Eventualmente, pode-se trabalhar com breves indicações conceituais ou de debate que melhor orientem determinada prática. Com a ressalva de que o olhar não é necessariamente o mesmo do professor. Até porque o ombudsman localiza-se mais no campo profissional que exclusivamente pedagógico, em suas ligações com a sociedade (expectativas de instituições e leitores).

Podem aparecer relações com outros acontecimentos e coberturas, noticiados tanto pelo Portal como por outros serviços. Desde que auxiliem a ver melhor o que estamos fazendo e para onde podemos ir. Tenta-se avaliar o que foi produzido e projetar futuras ações. Nem todas as avaliações referem-se a correções imediatas sobre o material já publicado. Algumas tentam muito mais servir como auxílio para novos trabalhos (pautas, reportagens, publicações).

Identificar limitações é uma das formas de desenvolver um projeto laboratorial. Não queremos que seja sempre o mesmo, mas trabalhamos no seu (estudado e reflexivo) aperfeiçoamento.



Observações da semana
Período avaliado: de 3 a 9 de maio


Agenda Cultural e Comunicação Comunitária
A agenda cultural do Portal Comunitário, na semana de 4 a 12 de maio, estava devidamente atualizada já na segunda-feira (4), o que não acontecia com o informe oficial da Prefeitura. Além da relevância do serviço (opção cultural também é utilidade pública comunitária!), cabe notar o cuidado em não ficar dependendo da publicação em dia no site do Governo Municipal - o que seria um certeiro prejuízo à pluralidade.

No entanto, de modo semelhante às agendas culturais de jornais da cidade, ainda há falta de sistematização das informações - uma organização dos dados que facilite a navegação do leitor (aqui necessariamente apressado). As letras garrafais deixam essa impressão de pouco 'trato' jornalístico do material. Outro indicador é que boa parte da programação seja referente aos eventos da Semana da Cultura Bruno e Maria Enei.

Algo a se planejar ao longo do tempo, claro, uma vez que não é o cardápio principal do portal e certamente recomendaria equipes e lógicas próprias de produção.

Vale ainda destacar nesse sentido de agenda o bom serviço dos "Eventos das Comunidades" na página principal. A agilidade e a simplicidade (eficiente) lembram os famosos murais de informes em pequenas comunidades (que possuem função estratégica de organização). Só resta atentar para cobrir o que for ali anunciado. Aquele encontro na UEPG para discutir políticas públicas, por exemplo.

Que outras formas básicas de comunicação popular poderíamos reativar ou rearticular via portal?

Nesse mesmo sentido, só que como preocupação, ressalta-se que o espaço de crônicas está abandonado, como já destacava a professora Karina Janz.


Quando a notícia escapa pelos dedos

Matérias da semana indicam um bom jogo de pautas, devidamente vinculado ao interesse comunitário. No entanto, às vezes a notícia passa diante do gravador e dos olhos do repórter e... escapa. É o caso do texto Inadimplência no pagamento do auxílio saúde dificulta administração do Siemaco, do dia 5. Será que o principal resultado da inadimplência é gerar problemas administrativos ao sindicato, como sugere o título?

A falta de clareza no início pode afastar o leitor (sigla no título e ambigüidade). Quem são os inadimplentes? É preciso ler toda a matéria para entender que não são os trabalhadores, mas determinadas empresas. Seria de se esperar que a reportagem fosse em busca de tais devedores, que podem estar prejudicando um serviço de saúde, direito dos sindicalizados. A questão da pluralidade não se resolve tão somente em ouvir várias fontes que apontem a importância do auxílio, como se vê.

Lá pelas tantas se descobre que o Grupo Alerta há dez anos não faz os pagamentos, o que resulta em uma ação na Justiça. Isso é mais noticiável que os dramas administrativos e pediria uma possível revisão de foco. Claro que pode ser resolvido em novas matérias (suítes). E o fato de tal informação estar ali é porque já houve um bom trabalho de reportagem. Talvez seja o caso de se negociar melhor o que vem como direcionamento de pauta e as novidades apreendidas no trabalho de campo.

Em outros momentos, o problema não é de foco, mas a notícia 'escapa' pela falta de alguma informação complementar. Matéria do dia 4 sobre curso de alfabetização no Reviver deixa de informar quantos são os inscritos até o momento. Parece que poucos. Novamente, a pauta é 'quente' do ponto de vista comunitário. Outros detalhes a tornariam ainda mais pertinente e original (para além de um mero reclame de certos moradores). No referido Programa Paraná Alfabetizado, a responsabilidade pela divulgação e inscrição de novos alunos é do Reviver ou do Governo? Chama a atenção pelo fato de que são integrantes da ONG que estão correndo atrás, como destaca o texto. Qual a contrapartida governamental?

Estimativas sobre índice de alfabetização na cidade ajudariam a melhor dimensionar a importância do projeto, o que a matéria (antiga) do link tenta fazer, com limitações.

Ainda nesse sentido de tirar melhor proveito de boas pautas, faltou à matéria sobre participação de representante local no Congresso Nacional dos trabalhadores dos Correios um dado concreto sobre a condição hoje e histórica de tais trabalhadores.

Já em matéria sobre a baixa adesão ao Sindehtur, a contradição espera por ser explorada e, assim, virar notícia. Com um sindicato de tamanha abrangência, gostaríamos de saber quantas são as empresas de tais setores profissionais em PG. Isso ajudaria a saber o quão pequeno e pouco expressivo é o número de 700 sindicalizados. A concentração na voz exclusiva do presidente não dá conta de responder... Alguma outra fonte poderia avaliar melhor o impacto de tal situação e os interesses envolvidos.


Localização no site, no assunto e na cidade

Uma das formas do Portal conduzir ou estimular a participação e a leitura do internauta é pelo modo como localiza as matérias na página. As classificações na barra esquerda situam os conteúdos não apenas por assunto, como seria o óbvio, mas também por entidades, sindicatos e bairros.

Em algumas circunstâncias, no entanto, a data da matéria desaparece, o que é preocupante uma vez que temos a possibilidade de acessar o sítio nem sempre pelo início e a qualquer horário. A Reportagem da Semana fica sem data, por exemplo, em sua página principal.

Outra ação possível no jornalismo digital é melhor situar o leitor no assunto do texto com recursos específicos. Um exemplo é oferecer indicações de caminhos para complementação ou aprofundamento. A matéria sobre palestras de orientação à doação de medula óssea cumpre a indispensável função de serviço, mas poderia também apontar endereços para quem deseje outras informações (inserção do problema em PG e no estado, por exemplo). Formas de sair do evento pelo evento.

Deslocamentos geográficos ou estratégicas ocupações do espaço urbano realmente não podem 'passar batido' para o jornalismo de interesse comunitário. Esse desenhar da cidade agrega valor-notícia ao Portal e prova disso é a cobertura de manifestações (mesmo no feriado!), como a Caminhada do Trabalhador.

Há aí também uma prestação de serviço, como o informe de que a farmácia do Sindicado dos Servidores Municipais mudou de lugar.

Já o texto sobre a festa do trabalhador deixa de localizar devidamente na cidade o evento. Quem sabe os mapas (gratuitos) sejam opção de (localiz)ação a trabalhar de algum modo justamente nesse enlace comunitário pretendido.

Por Rafael Schoenherr

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Em tom de despedida

Nesta semana, encerro minha participação como ombudsman do Portal Comunitário. E é com um certo tom de lamento que me despeço deste espaço, que me oportunizou o contato com um projeto promissor, baseado em uma perspectiva de atuação jornalística e formação profissional voltada aos interesses coletivos. Através dos textos publicados no site, foi possível conhecer problemas, reivindicações, experiências e iniciativas de comunidades, grupos e entidades sociais. E também fortalecer a idéia de que é possível – e necessário – apostar em um jornalismo comprometido com a noção de cidadania.

Por isso, preciso agradecer pela confiança depositada pela equipe do Portal ao me convidar para a nobre função de ombudsman e pela oportunidade de diálogo que este trabalho possibilitou. Foi com profundo interesse que acompanhei a produção diária do site, os avanços do projeto, o envolvimento crescente dos(as) alunos(as), os resultados conquistados. E é com o mesmo entusiasmo que desejo vida longa ao Portal Comunitário, acreditando nas potencialidades deste projeto e na sua contribuição para a comunidade de Ponta Grossa.

Como leitora, continuarei acompanhando este trabalho e, sempre que possível, tecendo comentários, críticas e sugestões (cuja pertinência cabe à equipe avaliar).
Aproveito, ainda, para desejar um bom trabalho ao colega Rafael Schoenherr, que assume a função de ombudsman a partir da próxima semana. Certamente, sua leitura sempre crítica e oportuna irá qualificar o projeto do Portal Comunitário, contribuindo para o aprimoramento do trabalho jornalístico.

Por Karina Janz Woitowicz

Reportagem da semana

A criação de uma nova editoria no Portal Comunitário, “Reportagem da Semana”, reforça a proposta do projeto de investir em reportagens mais completas sobre determinados assuntos, através de uma abordagem jornalística em profundidade. Tais reportagens, que já eram publicadas no site, são agora valorizadas no Portal e podem ser acessadas com maior facilidade, ao ganharem destaque na página.

Na reportagem que inaugura este espaço, que trouxe para a discussão o uso de animais em pesquisas científicas, o assunto é desdobrado em diversos enfoques, de modo a apresentar os impasses e conflitos que o cercam o tema. Das posições de pesquisadores, professores e alunos aos métodos de ensino e às questões éticas implicadas no debate sobre utilização de animais em aulas e em pesquisas, os textos oferecem importantes elementos para refletir sobre a questão.

A opção da reportagem é a de contrapor falas e opiniões, tensionando a questão da necessidade real de utilização de animais em pesquisas, a partir de vozes dissonantes. Assim, ao contrário de outras matérias publicadas no site, que demarcavam claramente determinados pontos de vista, na referida reportagem se tem um maior distanciamento em relação ao tema, embora se perceba o comprometimento com a busca de critérios para a pesquisa com animais, conforme se observa no editorial, que sugere (ainda que de forma sutil) a defesa da vida dos animais.

O que quero chamar a atenção é para a possibilidade de assumir posições em relação aos assuntos tratados pelo Portal, uma vez que a comunicação comunitária permite um maior envolvimento com as questões que envolvem a comunidade. Isso não quer dizer que a parcialidade deve ser tomada como ponto de partida do trabalho de reportagem... Observo apenas que, com base em informações consistentes, que contemplam posicionamentos diversos, a equipe pode (e deve) valorizar o seu diferencial: oferecer reportagens que abrem espaço para a defesa dos interesses, opiniões e iniciativas da sociedade civil organizada.

O desafio, portanto, está em conciliar a explicitação de informações e argumentos sobre determinados assuntos de maneira profunda e plural, como se exige em um trabalho de reportagem, com uma angulação que privilegia as vozes dos grupos e entidades sociais.

Por Karina Janz Woitowicz

Política em foco

Vale destacar, uma vez mais, que a seção “Notícias da Câmara” está revelando a sua importância no Portal, ao trazer informações sobre o cenário político local. Além do acompanhamento de assuntos de interesse público referentes à pauta da Câmara, a equipe está desenvolvendo um trabalho de apuração jornalística que possibilita mostrar a relevância de tais assuntos para a comunidade.

É o caso da matéria sobre o Movimento Cidadão, que além de trazer informações sobre a ação da VCG também menciona aspectos como a planilha de custos da empresa, as condições da frota de ônibus, as mudanças na lei que regulamenta o transporte coletivo, entre outras questões tangenciais que contribuem para compreender o problema.

Por Karina Janz Woitowicz

Avanços e acertos

Sendo esta minha última semana como ombudsman, quero destacar alguns aspectos positivos observados no Portal Comunitário, que indicam os resultados de um trabalho de experimentação da equipe ao longo do projeto.

Um deles é a proximidade conquistada junto aos diversos setores da sociedade civil de Ponta Grossa. Este envolvimento, mencionado em alguns relatos de alunos e alunas, se constata nas pautas trabalhadas pela equipe, que valorizam reivindicações e iniciativas dos movimentos, grupos e entidades sociais.
Outro aspecto diz respeito à percepção sobre o que é notícia em um projeto de comunicação comunitária. A tematização das questões que envolvem o cotidiano de diversas categorias de trabalhadores (como a matéria sobre o Sinpospetro, na última semana), os problemas enfrentados pela comunidade em relação à saúde, habitação e diversos serviços públicos (como as denúncias dos moradores a respeito do atendimento limitado no posto de saúde do Jardim Esplanada), as atividades realizadas pelas entidades sociais de Ponta Grossa (Apadevi, Reviver, entre outras) e a cobertura de eventos das comunidades (como as comemorações do dia 1 de Maio, com festa e Caminhada do Trabalhador) confirmam que o projeto está em sintonia com as demandas coletivas e está contribuindo para o debate e a visibilidade destes temas.

Em relação à qualidade do material publicado, percebe-se que os textos apresentam uma maior padronização e que há uma preocupação com a clareza e a consistência das informações e com o formato do texto jornalístico. Além disso, o uso de fotos jornalísticas está aumentando desde o início do projeto, pois a impressão era de que, ao circular pelo Portal, o uso de imagens poderia ser mais valorizado. O que prevaleciam nas matérias eram fotos dos entrevistados (no formato ‘boneco’). Nas últimas semanas, fotos com conteúdo informativo ganharam um maior espaço, embora ainda seja possível explorar melhor este recurso. Talvez seja o caso, inclusive, de criar uma galeria de fotos capaz de revelar outros olhares sobre a cidade. Mas esta é apenas uma sugestão para ser avaliada futuramente pela equipe...

Por Karina Janz Woitowicz