quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A velha questão: Quem cuida dos filhos, se a mãe trabalha?

Há pelo menos quatro décadas, o movimento de mulheres discute o problema das mulheres trabalhadoras, que enfrentam o dilema de não ter onde deixar os filhos. Lamentavelmente, este ainda é um tema bastante atual, considerando que o cuidado dos filhos - embora se perceba algumas mudanças na organização familiar e na distribuição de papéis - continua sendo uma responsabilidade das mães.

O caso de Erica, mãe de João Vitor, abordado em uma matéria, é ilustrativo disso. Embora se afirme que a prioridade nas creches é para filhos de pais que trabalham (e também para famílias monoparentais), nem mesmo esta demanda é contemplada. Há tempos Erica aguarda por uma vaga e João Vitor brinca no cemitério... Sem falar na falta de berçários, que dificulta consideravelmente o retorno ao trabalho para as mulheres com filhos pequenos.

Porém, embora a equipe do Portal tenha apresentado estes vários aspectos do problema, observo que a abordagem sobre “quem precisa” de creches comprometeu a compreensão sobre o assunto. As matérias falam sobre o direito universal à educação, mas por vezes parece que necessitam de creches apenas as mães que trabalham fora. O risco desta associação está em ignorar que o trabalho doméstico também deve ser reconhecido como um trabalho. Assim, se considerarmos o direito da criança de contar com um espaço de socialização na etapa que antecede a educação básica, a questão sobre “quem precisa” de creches de estende para todas as famílias.

Algumas passagens das matérias podem ilustrar este enfoque: “aceitam crianças de pais que não trabalham”, critica uma das entrevistadas. E a responsável pelo Conselho Tutelar Leste Ponta Grossa chega a afirmar que “quem realmente precisa não procura o conselho” e que “as pessoas sem a real necessidade são as que mais procuram”. Sem problematizar este aspecto, a reportagem ‘embarcou’ neste discurso, prevalecendo para o(a) leitor(a) a impressão de que as creches devem ser para quem ‘realmente precisa’ (como se este critério não fosse questionável...). O risco, neste caso, é deslocar o foco do problema.

Por Karina Janz Woitowicz

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