Na próxima quarta-feira (17), o Superior Tribunal Federal (STF) deve julgar, após seguidos adiamentos, a obrigatoriedade da formação superior em Jornalismo para exercício da profissão. A questão interessa fundamentalmente à sociedade que se quer bem informada e, portanto, à democracia. Indiretamente, interessa a todos aqueles que trabalham a crítica de mídia (como usuários ou produtores) e, por pressuposto, preocupam-se com a qualidade da informação midiática da atualidade como acesso à cidadania.
Uma das condições para a qualificação das produções jornalísticas é a institucionalização e sólida legitimação do espaço por excelência da crítica e do aprendizado, ou seja, do ambiente de formação superior em Jornalismo. É nesse campo de ensaios (arranjos, composições, desempenhos, escutas, orquestração) que se trabalha a competência e o saber para uma forma muito específica de ver/dizer/fazer cotidianamente o mundo social. De tal forma que a melhor maneira de se defender a liberdade de expressão é zelar pelo espaço público com a produção de um jornalismo orientado pelo interesse coletivo – capaz, assim, de expressar com pluralidade os acontecimentos de uma época e de uma sociedade.
Dado o caráter necessariamente clonflitual e complexo das dinâmicas sociais contemporâneas, é no espaço institucionalizado de desenvolvimento reflexivo de competências específicas e não exclusivamente no desejo individual de se expressar em público que reside a garantia de um profissional capaz de reconhecer demandas públicas de informação e reinventar periodicamente olhares sobre a realidade.
O projeto extensionista-laboratorial do Portal Comunitário é um dos espaços voltados à prática, reflexão e ao aprendizado de um fazer singular – a partir da sintonia com as movimentações comunitárias de Ponta Grossa.
Limites do enfoque (em exame): a psicologia de um drama social
No comentário anterior, assinalei o bom trabalho de pauta da reportagem especial ao buscar, em determinado momento, entender a participação do indivíduo em causas coletivas. Na reportagem desta semana, no entanto, praticou-se o reverso: o conjunto das matérias lê a sociedade a partir da esfera individual – e aí está, a meu ver, o principal limite do enfoque adotado/testado.
O enquadramento preferido para atacar o problema da obesidade foi a dimensão psicológica, que nem sempre precisa ser fútil (como o faz crer, por vezes, o telejornal da hora do almoço), certamente, mas também está longe de ser a única. Basta ver como essa interpretação é valorizada nos títulos:
Preconceito contra obesos leva a isolamento social e provoca doenças psicológicas
É preciso “trabalhar com valores, como respeito, paciência e tolerância”, diz pedagoga
Depressão é uma das doenças psicológicas mais comuns entre obesos
A estrutura da reportagem da semana leva a crer (ou promete!) que um tema será ali desdobrado, abordado nas múltiplas determinações. Em geral, tem funcionado dessa forma no Portal. Mas desta vez o material ‘psicologizou’ um problema social, dado o enfoque sobre tema.
E quais os ‘sintomas’ desse enfoque (viciado)?
- ênfase no aspecto individual do comportamento (vontade pessoal). Isso é diferente de investigar onde é que certas ações aparentemente individuais ganham respaldo ou tensionam práticas institucionais. A entrevista com a pedagoga tenta fazer esse enlace, quando insinua que tolerância passa por aprendizado, necessariamente social. Mas é pouco. Talvez a fala da fonte aí muito situada no ambiente da educação privada não tenha permitido explorar uma questão afim: na educação municipal básica, o que existe de orientação a respeito? Pois aí estaríamos, como leitores, interessados em saber onde uma vontade geral (tratar sem preconceito) se institucionaliza. Algumas situações cotidianas permitem ‘ler’ essa zona de tensão entre o problema aparentemente individual, ainda que seja classificado como “doença”, e social - quando se tem dificuldade para passar na roleta do ônibus, sentar na cadeira do cinema, do banco, esperar em pé em filas...
- o editorial sinaliza, ao final, para a questão das políticas públicas específicas, mas nem o texto nem o conjunto das matérias acabam respondendo por isso, que seria um dos principais ‘ganchos’ para a reportagem. Quais os planos de PG para a saúde pública? E a obesidade faz parte dessa cartilha? Faltam estatísticas que sinalizem a incidência do problema. Afinal, o sistema público de saúde realiza a referida cirurgia? Com que freqüência? Quais os riscos? Quantas foram as campanhas preventivas mobilizadas até agora? Como se vê, o problema pede alçada mais ampla e não é de responsabilidade exclusiva das revistas femininas como (parece) gostaríamos. O editorial precisaria pontuar uma questão da atualidade para, aí sim, argumentar.
- há um comentário de uma das fontes sobre a cirurgia pelo SUS e a demora em conseguir. Ali estaria um possível novo enfoque para o tema, mas que ‘passou batido’.
Ainda assim, há que se considerar a relevância de se colocar e desenvolver o olhar sobre o (problemático) tema na agenda midiática. O que é digno dos mais variados esforços e não ação de simples reflexo de acontecimentos, como se o trabalho do jornalista fosse automático e não um cotidiano repensar de estratégias para identificar e narrar a presente ação humana. A formação em Jornalismo tem a ver, também, com esse espaço de ensaio e treinamento que nos permita (como sociedade) dispor de informações precisas e enfoques renovados/ousados/pertinentes sobre o modo de vida contemporâneo (em nada consensual).
O que se chamou aqui de ‘psicologização de um drama social/público’ não esgota, portanto, a valiosa tentativa da cobertura dos estudantes, que precisam seguidamente enfrentar jornalisticamente temas complexos. Esse enfoque, aliás, é muito presente na cobertura, em geral, de outros temas, como depressão e até mesmo emprego (!) – quando se enfatiza que depende da boa aparência do candidato na hora da entrevista, entre outras variações interpretativas midiáticas...
Por fim, vale frisar, concatenar outros “quadros interpretativos”, para roubar expressão do sociólogo canadense Erving Goffman muito cara à teoria do jornalismo, ultrapassa obviamente uma questão de maldade ou má vontade de repórteres e editores. Implica domínio de saberes específicos do campo jornalístico - de reconhecimento, procedimento e narração, como relembra o professor Nelson Traquina. Logo, é justamente no tempo/espaço da formação acadêmica que tais competências de olhar o mundo a partir do interesse público – e assim selecionar ocorrências, fontes, mas também enfoques – devem ser moduladas, experimentadas, debatidas e pesquisadas.
Links com precisão cirúrgica
O trabalho com links avançou em relação às semanas anteriores e a matéria especial reflete esse esforço em mesclar continuidades internas (do próprio Portal) e externas (de outros sites e endereços). Caberia pensar apenas na possibilidade de melhor precisar quando se trata de matéria de arquivo ou atual (algum sinal gráfico poderia acompanhar a chamada, talvez). O mesmo vale para o link de áudio com a entrevista (na página da matéria, falta o link). A chamada leva a entender que é possível ouvir no site mesmo (em streaming). No entanto, é preciso baixar o arquivo MP3. Dada as inúmeras possibilidades de clique do internauta, ele precisa saber exatamente onde está indo parar em cada link, como frisa o pesquisador José Pinho.
Rafael Schoenherr (rafaelschoenherr@hotmail.com)

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