O jornalismo em Ponta Grossa possui evidentes dificuldades para lidar com histórias de vida, que se expressam ora no tom piegas que assumem certos relatos (como se o leitor, ouvinte ou telespectador devesse sentir pena do entrevistado), ora no tratamento folclórico da diferença humana (em geral quando o repórter descobre que a cidade vai além do trajeto entre a casa e o trabalho e fica então maravilhado).
Uma terceira variação do problema seria a utilização meramente ilustrativa das ‘vozes do povo’ para reforçar teses ou polarizações previstas pela estrutura do texto e da pauta (governo x cidadãos, autoridades x anônimos, poderosos x excluídos, mundo oficial x pessoas comuns, prefeitura x ONGs), sem efetivos resultados sobre o tratamento a um determinado aspecto da realidade que se decidiu converter em notícia de interesse.
Tais dificuldades são enfrentadas pelo jornalismo contemporâneo, não são exclusividade dos periódicos princesinos. O que parece específico da nossa cobertura informativa é que sequer se enfrenta tal problema por aqui. A questão não está na ordem do dia das decisões sobre produção jornalística da cidade – é encarada de canto, mais na perspectiva de ‘se sobrasse espaço...’, ou ‘se tivéssemos um caderno de cultura’.... aí sim!
O que o Portal Comunitário parece sinalizar desde a semana passada (de 31 de maio a 6 de junho) é que a variação nos formatos pode sim ter a ver com tentativas jornalísticas de ampliação do debate público sobre temas de relevância nos rumos da cidade.
O indivíduo em causa coletiva
O recurso adicional do perfil (de trabalhadores, voluntários ou envolvidos nas causas retratadas) foi um dos formatos utilizados na reportagem da semana, sobre as práticas musicais com crianças no Grupo Reviver. Como complemento informativo, o relato dos trajetos de vida de determinado indivíduo da comunidade é um dos mecanismos para uma possível humanização das pautas e para a justa compreensão de que projetos, ONGs, associações, ações políticas e movimentos não possuem vida própria, mas resultam de pessoas que decidiram sair de casa e fazer alguma diferença para as comunidades, nas suas mais variadas causas.
Interessante notar que além do texto de perfil, a reportagem da semana contou também com entrevista direta com especialista (outra variação discursiva na construção do acontecimento). Houve também ampliação no uso de fotos no Portal, como na matéria que registrou evento de formatura de costureiras do Grupo Reviver (momentos marcantes para as entidades que, muito provavelmente, ficariam sem registro público não fosse a ação da reportagem em busca dessas pequenas histórias).
Claro que a história do indivíduo não desobriga o repórter de procurar marcas e ações estruturais ou institucionais. Dada a tensão entre esfera individual e coletiva (organizadora da vida política, cultural e comunitária), cabe mais uma lista de questões na abordagem da realidade pelo ângulo do perfil do que recomendações fechadas ao repórter.
O leitor do texto final pode se interessar pelo perfil para tentar entender em que medida certos esforços individuais são estimulados ou limitados pelo poder público ou pelo mundo institucional. De que forma se deram as escolhas que ligaram o indivíduo a uma causa coletiva? Quais expectativas nutre tal personagem? Como costuma ver e levar, de modo único, as coisas da vida? Que dúvidas possui sobre os rumos da cidade e de seu bairro? Como se vê, para isso não precisarmos recair em exaltações de heroísmos ou na criação simbólica a cada manhã de pessoas ‘sempre de bem com a vida’. As causas são mais humanas e cotidianas que isso.
Obras públicas paradas, deterioradas e saúde
Na sexta-feira, o Portal Comunitário noticiou obra parada na Vila Santa Paula. A Prefeitura não prestou os devidos esclarecimentos sobre o andamento da construção do Centro de Atendimento à Saúde. A equipe de reportagem deve pensar saídas em tais casos para não ficar... parada diante de tal impasse informativo. Vale acompanhar desdobramentos e cobrar satisfações mais claras, no mínimo, ao contribuinte.
O site http://www.foconaobra.pr.gov.br/, do Governo do Estado, permite ao cidadão fiscalizar obras em execução e finalizadas/entregues. Que mecanismo a Secretaria Municipal de Obras utiliza para tal fim? Temos algum recurso de informação pública para além da placa da Prefeitura no terreno? Entre outros recursos na web, a transformação do tema em pauta regular pode estimular a participação do leitor na denúncia de irregularidades em obras, fiscalização do andamento e destinação, portanto, do dinheiro público.
Na terça-feira o Portal destacou situação precária da estrutura do Colégio Santa Maria – “O crescimento da comunidade não foi acompanhado pela estrutura do colégio, que hoje apresenta problemas sérios’, informou a matéria. No entanto, não foram repassados ao leitor dados que melhor elucidem tal crescimento, o que reforçaria ainda mais o apelo singular do fenômeno como notícia.
Já no texto que anuncia encontro para amanhã entre Obesos Alerta e Secretaria Municipal de Saúde, faltou pontuar o que há de políticas públicas voltadas para esse problema. Trata-se de breve contextualização que melhor funciona no sentido de agendar a discussão e preparar para o referido encontro (seguido de nova cobertura, espera-se).
Navegação
Pode-se notar desde a semana passada duas mudanças em termos de navegação no Portal. A primeira refere-se à listagem ao pé da primeira página de chamadas para matérias mais atuais. Isso reduz a necessidade de ‘virar’ a página para conferir textos da semana imediatamente anterior, por exemplo.
A segunda alteração é a utilização mais freqüente de links dentro das matérias e ao fim dos textos, como sugestão de complementação e aprofundamento de informações. Cabe apenas agora o cuidado na hora de encaminhar o leitor aos links externos, sinalizando onde exatamente ele vai parar ao clicar. Caso contrário, tem-se a impressão de que todos os títulos indicados são matérias atuais do próprio Portal. Em alguns sites isso é feito com o recurso de janela que abre quando se passa o ponteiro do mouse sobre determinada palavra.
Reconhecimento
Na última sexta-feira, mesma data do evento de relançamento do Portal Comunitário na Câmara Municipal de Ponta Grossa, o projeto do curso de Jornalismo da UEPG recebeu prêmio de melhor jornal-laboratório online no 14° Prêmio Sangue Novo do Jornalismo Paranaense.
Rafael Schoenherr

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Manifeste sua opinião, dúvida ou observação.